10 de mai de 2018

fagulhas-fada

Faz um sem fim de dias que não intento a escrita. Não tenho melhorado muito desde a última vez que pormenorizei em letras o que se passava em mim. Danço e rodopio numa tempestade impiedosa, mas que em vários momentos me apresenta cabanas de acolhimento em brechas de sol sobre a pele. Vai e volta esse sol, e também assim procedem os pingos constantes e grossos de uma chuva gélida. Meu peito é um descompasso de hipóteses e todos os "se(s)" me deixam tonta em momentos diversos levando minha mente a outras infindáveis dúvidas. Sou canto sem voz?  Meus olhos se confundem na chuva com a própria nuvem infindável e por vezes, minha própria chuva não chega a cair. Fora de mim, o mundo faz metáfora do que várias vezes vivo aqui dentro. E falo pro nada. Deixo que partam fagulhas insensíveis à tempestade e que brincam aos saltos nas poças e córregos do que desabou faz tempo no mundo dos homens. Gargalham. Não sabia eu, poder brotar criaturinhas feéricas do peito , mas elas vão e continuam a brilhar. Não sei se sou onde elas estão ou se fico antes delas partirem. O sol está em mim? Ou sou a chuva sem fim? Tanto tempo, tanto tempo. Faz frio aqui, mas do meu peito brotam ainda fagulhas-fada que se dispersam pra além do que consigo sentir. Elas queimam. Fervem em cada explosão antes de saírem aos saltos de dentro de minha alma... O que fiz eu quando decidiram partir? Ou sou a fonte e permanecem, ou sou onde elas estão... Tudo é tão breve!

6 de mai de 2015

temporal

Sempre considerei escrever um dos exercícios mais complicados dos quais me eram entregues por tarefa. Não que não conseguisse traçar uns parágrafos mais ou menos bem acabados mas invejei desde sempre a facilidade absurda que algumas criaturas possuíam de, mesmo que lendo tão menor quantidade de livros do que eu, expressar suas ideias com clareza e fluidez. Isso é realmente digno de ser chamado talento. Não o possuo ainda. Questão de fusos e mais fusos que se vão pois que há tempo em sopro constante até onde o universo permitir.

Nessas reviravoltas de reflexões já me entretive contemplando alguns de meus escritos sem que lhes conseguisse ir além. Sempre faltava algo de maior, ou mais terno, ou mais amargo que me impregnasse as palavras de um sentimento borbulhante ou que me auxiliasse para além das metáforas, a concluir a função curativa que é escrever. Não chegava a tal encanto.

Me sinto como que presa a um grilhão estranho e medonho. Essa incerteza que por vezes me leva a agonia de pensar até qual ponto me é possível chegar. Talvez por ser pouco lógica não consigo evitar os calafrios que me correm a espinha contemplar abismos profundíssimos ou mergulhos abissais. Tenho medo. Isso vai muito além da escrita, chegando a contemplar até mesmo minha fala. Falta-me memória possível para alicerçar todas as ideias fabulosas que tive à véspera de meus discursos. Falta-me também uma eloquência que cative e que ultrapasse meus sussurros trêmulos e instáveis. Essa timidez que me corrói cada sílaba fazendo com que minha orientação seja pra lugar algum e que meu discernimento caminhe por cordas bambas.

Mas, ah! Já passei tanto! Tem sido um constante temporal e eu não tenho abaixado a cabeça pois que, muito mais do que o que essa palpitação acelerada que me altera por completo a respiração, tenho certezas que me impelem para bem além do que dói...

29 de jan de 2015

Florescer

Isso de cultivar mal-me-quer tem muitos limites que precisam ser ultrapassados aos poucos e obviamente, nós não transformamos espinhos em flores só por motivos de que talvez, já que acordei bem hoje, posso perdoar todo mundo. Absolutamente que não funciona assim. Tem muita gente que força a barra querendo que as coisas tomem formas que não tinham antes e, esses pragmáticos, não medem esforços para conseguirem seus bons fins. Quanta infantilidade.

Aprendi com um professor que em Exupèry, a raposa, quando diz ao principezinho que ele havia conquistado o amor da rosa estava apontando a ele de forma absolutamente maquiavélica que os o que importa são os resultados e não os meios. Mas, ora, o principezinho retruca dizendo que não intencionava aquilo (tão deontologista! o valor estava, obviamente em suas ações e não em suas consequências)…Daí vem o “Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas”, frase aliás, absolutamente consequencialista.

O que importa, aliás, nesta reflexão, é entender que muitas vezes, os nossos fins não são conseguidos sem esforço. Aliás, já nos falava Aristóteles destas coisas ao lembrar que – na Ética das Virtudes – para que houvesse florescer, era necessário esforço e potência…

Haverá, sem dúvida alguma, obstáculos grandes ou pequenos que nós obviamente precisaremos passar e não há de ser de um dia pro outro que as coisas vão se encaixar tal como gostaríamos que fossem.

Não sei, acho que hoje talvez, eu esteja propensa a pensar em alguns valores que PRECISAM ser trabalhados em brasas fervilhantes para que se haja um bom resultado. Aliás, o que é a virtude? É ter o hábito de um comportamento moral, ainda que fora de vigilância ou repressão de olhares outros.

2 de nov de 2014

Mudanças

"Sei que meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele, o oceano seria menor". Madre Tereza


Me sinto aflita, por diversas vezes e, até mesmo fora de idade ou contexto quando vejo pessoas perderem minutos em crítica, porque o mundo tá "um caquinho de vidro" - viva a paráfrase! - mas ora, já que estou aqui, e da minha vida nada posso oferecer, vamos permanecer. Um brinde à inércia. Muito confortável achar que está tudo absolutamente truncado ou que a vida não tem nada exponencialmente grandioso quando a gente não trabalha para que esses pormenores absolutos venham a tomar forma e se espalhem como sementezinhas de dentes-de-leão incansáveis.

Eu sou potencial e possibilidade e muito além do que isso, sou aquilo que quero e minha vontade me permite alcançar.

Vejo muita gente elogiando e promovendo páginas de ONGs, falando do trabalho bonito e altruísta de outras pessoas e não sendo melhor do que clichê ao dizer que "o mundo precisa de gente assim". Mas e aí?

Vou falar uma coisa. Melhoria começa dentro da casa da gente. Se orgulho é coisa que ainda impera na sua fala e - dói reconhecer isso? - então não queira ser hipócrita dizendo que o mundo precisa melhorar.

É fácil ser agressivo ou sem educação. Quero ver quem consegue dar a cara a tapa quando outra pessoa fala alguma ignorância ou age por impulso ferindo nossa vaidade. Não to falando em ser passivo, mas ser suficiente sábio pra entender e não julgar impulsos.

Mas se você acha que isso tudo é difícil demais e que os obstáculos são muitos, não vá criticar a forma como as coisas se desenvolvem na sociedade em que você está inserido.

Você é co-autor de tudo o que acontece em menor ou maior extensão, uma vez que uma pequena atitude sua muda um dia inteirinho de uma pessoa e que isso vai transcorrer num ciclo em que ela vai afetar outras e outras pessoas...


2 de out de 2014

Cubos de açúcar


Não sei se vocês já sentiram um pouco de marasmo ao pensar no quanto ainda vocês precisarão passar ou se sou uma sofredora por antecipação absoluta. O fato é que o motivo dessa ansiedade muitas vezes me deixa um pouco encabulada com meus dias presentes e ansiosa por alguns momentos em que determino mentalmente como essenciais. Não sei a relevância disso tudo, afinal, já não é atoa que segundo que é segundo passa devagarinho e gotejante. Mas não importa. Não importa a receita agora porque o que vale é o bolo depois; Ou não importa o bolo depois porque vale melhor a próxima receita e etcétera .Já que parece um pouco cansativo essas indas e vindas de sentidos projetados, mas deveria ser igualmente fácil não articulá-las de forma tão operante em nosso subconsciente.

Eu ando muito bem, obrigada. Claro que com minhas dorezinhas e com minhas possibilidades boas e não, não tão legais assim. Mas a pesar de me consumir pelo próximo cubo de açúcar antes que que o primeiro privilegie meus sentidos, estou caminhando bem na medida da minhas criatividade ao longo do que posso fazer por mim ou do que preciso realmente fazer sem que para isso haja interesse.


26 de jul de 2014

Um sonho

Eu pude ver que do alto de onde despencavam algumas pedrinhas, meus pés tocavam o chão. A extensão marítima abarcava tudo quanto eu conseguia enxergar e não menos salgadas, as lágrimas quentes, perpassavam meu rosto absolutamente gélido pelo vento forte que me cortava em dor, cada partezinha do corpo. Meu vestido que até o solo contava extensão, ia e vinha com força e com a mesma falta de leveza, eu apertava as mão em punho contra meu tórax. Meu sangue, em gotas pequeninas, roçava meu braço direito, até o cotovelo, de onde, encerrando sua jornada, gotejava no tecido suavíssimo em reviravoltas do meu vestido. Meu motivo estava tão distante quanto o que não me era permitido alcançar e, nosso pacto pegajoso e vermelho, ainda me lembrava do quanto eu estava borbulhando por dentro. Afinal, meu olhar buscava qualquer coisa que me desse certeza de que você - ainda que demorasse - retornaria ao que havia ficado como promessa. Estranho como me lembro disso tudo como se o mar fosse menor infinitas vezes do que minha possibilidade de tocar tudo quanto representasse sua alma com meu pensamento. Mas isso tudo foi tão rápido, tão rápido. Quando acordei hoje, não havia você, não havia mar, não havia sangue nenhum. Mas era tão absoluto que não podia descrer do que senti.

21 de jun de 2014

Sentir

Por quantas incontáveis vezes eu fechei e reabri este espaço sem que para isso não fossem necessários mais do que sentimentos que brotassem em cascata em meu espírito. Digo isso porque, é bem certo que de tudo quanto escrevo e tento imprimir aqui, estão absoluta e profundamente, acima de qualquer divagação, momentos que me levam a reflexões cheias de vida - ainda que esta vida seja imersa em doses de dor.
Eu uso, na maior parte das vezes, minha escrita como um gatilho pro que não consigo expressar e que me faz querer chorar ou ter alguma resposta diante de algum drama - por mais íntimo ou desajeitado que possa ser. Não que isso soe sentimentalista. Me contradigo, absolutamente o é...
O fato é que ando precisando de muito mais do que xícaras de chá ou palavras para conseguir elaborar um mar de coisas às quais venho tentando com elas amadurecer. Uma chave pequena e simples com a qual tenho me deparado em momentos em que não adianta nada: oração. Não existe orvalho mais leve ou poção mais delicada à angústia do que quando, em humildade, curvamos nosso espírito diante de algo bem maior e bem mais sutil do que nossas mentes conseguem transbordar com adjetivos. O nome desse Ser, a profundidade que o envolve bem como a capacidade de sentir absoluta é um dos pormenores mais doces...

2 de jan de 2014

Gratidão

Nossos pés tocavam o lodo escorregadio e o chuvisco que tocava nossos ombros era absolutamente mais quente do que a água à qual estávamos submersas. O nosso apoio estava no não saber até onde as pedras se estendiam. Esse é o maior problema de quem busca uma cachoeira lodosa. A água não é transparência aos pés. Mais rápido do que uma faísca que se esvai, meu corpo perdeu o apoio e, as mãos que me apoiavam esvaíram junto do meu corpo para um buraco que eu não conseguia alcançar ao fim com a ponta dos dedos. Um anjo de carne tentava nos jogar à margem e o verde que os olhos alcançavam junto ao grito oprimido pela tosse desenhava uma resignação desesperada por oxigênio. Não havia mais mão que tocasse pois cada fluxo de ar era tomado por água. O anjo, enfim, empurrou nossos corpos a um lugar onde outros anjos esperavam para nos amparar...

Gratidão é a certeza da falta de esperança que rodopia sua mente e que se desfaz por um segundo de alguém que decide mudar um fim.


8 de dez de 2013

Pó de estrela

Em absoluto, se cerro meus olhos a única certeza que consigo por milésimos abstrair é de que permaneço. Diante de fagulhas de um nunca mais a que o tempo me sentencia, todo e qualquer segundo meu passa como brisa que não é mais e que -igual pra todo mundo- foi soprado daqui. Memória não conta se o pó, por mais mágico e delicado, se a pluma por levíssima e em cócegas esvai. Por ousadia ou desespero em sussurros dedilho minhas escolhas e, antes que eu me arrependa, caio num buraco de efeitos que não consigo prever. Por mais doce a fragrância, ela vai embora e não fico senão com impressão. Vai passar, vai passar, vai passar a dor, o medo já foi embora, não há mais temor aqui, a angústia mudou de lugar e de nome. E ainda permaneço. Se abro os olhos, se me desfaço, se sou trêmula ou se sou triste. Não importa. Qualquer mínimo já desvia minha atenção ou desfoca meus sentimentos. Olha! Vê ? Sou quase infinito e não sou nada. Sou pó de estrela de reluzir etéreo e sou areia fosca que vai do nada a lugar nenhum. Sou espuma?  Sou areia? Sou estrela? Sou sonho? Permaneço.

5 de nov de 2013

Voyeur

O que faz com que o que era pouco aceitável alcance a elaboração do possível é, antes de qualquer razão, a forma como sentimentalmente lidamos com os aspectos que a isso nos atrai. Rostos bonitos que escondem dor e frustração nem sempre demonstram a que realmente gostariam de viver. Mas o que importa, afinal, se julgando o que sentem os outros ou o que vestem os que passam, ou que vida levam; o que importa afinal essa antítese tão bem elaborada se na mais das vezes uma armadilha de aparência intercepta o que há de mais puro naquele que é foco ao voyeur?

Não importa a crisálida se o que desabrocha da dor é mais belo do que o desespero que nutre a auto-transformação. É isso. Crescer e amadurecer não desvincula em momento algum nossas possibilidades do olhar do outro. E Deus nos ajude que esse olhar não seja ruim. Afinal, fruto nenhum é recomendável até que o doce prove o contrário. Da mesma forma a aparência.

30 de out de 2013

Cécile

Tocou o piano com a ponta dos dedos. Ali, entre sua pele e a madeira sentiu quase um trepidar. Suspirou em voz alta, reticente. Usava um vestido que terminava um pouco depois de seus joelhos. Era de um tecido bege e inimaginavelmente leve. Não sei se não olhou ao chão, ou se chão não havia ali. A menina que brincava com seus cabelos em uma traça mal feita, não sabia exatamente a diferença entre realidade e utopia. Piscou uma, duas, três e, não lembro se houve a quarta vez. Fez que procurava alguma coisa no quarto sem paredes, sem chão. Ah! Havia uma janela também com cortinas delicadamente tecidas. Florezinhas minúsculas eram representadas nela junto de um filete quase translúcido de água (ou era impressão?). A cortina estava fechada. A janela pendia no nada. Cécile continuou insistentemente inquieta num sem fim de curiosidades. Mas não tocou a cortina. Por que? Não buscou o chão. Por que?
Quieta, se abraçou. E ali ficou como se ninguém houvesse feito isso há séculos por ela. E sentiu vontade de rir. Riu. E sentiu também vontade de chorar... riu de novo.
E agora seu riso era sem som, era sem face; sorrir talvez fosse bastante dolorido. Chorou.
O piano iniciou sozinho uma melodia doce que embalou a menina em seu abraço. Da música, do riso, do choro , da curiosidade e da dor, nota a nota era tocada a Cécile.
Uma brisinha bem leve tocou o pescoço vazio da música. A cortina abriu devagarinho e num brilho fosco de lágrima, expôs o rio e as flores lá fora. Lá fora...
De uma pontezinha rústica, músicos acompanhavam o piano, o abraço, a menina.
Da ponta dos pés ousou: e num instante estava lá for . Cécile era a música então?

Ninguém a viu, ou escutou o piano. Mas a música... Cheia de abraço, lágrima e dor não tem fim.


(é uma escrita mais antiga minha mas que me coloca suave em alguns momentos em que ~preciso~ amainar)