22 de mar. de 2021

rodando

Do tanto que tenho visto daqui, várias vezes meu olhar é caleidoscópio, ou luneta, ou tantas outras microscópio. Sinto que perco muito de cada roda, quando minha mente faz curva em sentimentos que não quero sentir. Os vejo borbulhar quando não sobrava mais nada da espuma. As vezes são como ondas que se afastam, afastam, afastam. Depois a corrente volta a subir e me atropelam mais uma vez. Rodopio, na ponta dos pés, na areia da vida, ficando tão tonta por tanto que tenho sido jogada no chão quando me perco e esqueço que, se minha mente não acompanhar a roda, logo fico tonta. É tanta coisa que acontece no mundo, em tanta cor que, de luz e sombra só noto detalhes. E várias vezes prefiro fechar meus olhos. Eu rodo uma, duas, três, infitas vezes vendo dias desbotados, sabendo que não nasci pra ser morna, sabendo da onda que se afasta e que volta de tempo em tempo, das correntes que rodam no mar de tantas vidas e que acabam por respingar em mim. Esses dias tem sido num 360 que não consigo acompanhar. Há tanta coisas brilhando e tanta sombra que engole tudo. Tudo é tão breve. Escrever isso me deixa tonta. Eu gostaria de acompanhar o movimento das correntes, saber da onda antes que ela venha me sufocar, saber do mar se a maré vai abaixar, se está pra mergulhos rasos, se vai tentar me levar embora. Nem o céu sabe, afinal.

2 de mar. de 2021

vazio

Tem dias que tem um tanto de vazio que não se preenche de coisa nenhuma. Costumo observar o silêncio. Tantas vezes ele me acolhe todos os dias! Minha mente é cheia de vazios em cada entrelinha de pensamento, e mesmo os meus tantos pensamentos, tão perdidos, tão fora do chão, fazem orquestra muda em mim. Algumas pessoas nascem para o caos, outras nascem pro silêncio. A pensar minhas tantas entrelinhas, penso que me encaixo melhor na segunda opção. Não tenho brilho, não tenho palavra. Meu ser é sopro. Também assim a folha que brota e deixa de ser muito rápido, cai no chão. Dura tão pouco e não é notada. Todo esse vazio que brinca lágrima em meus olhos, faz mais uma vez, canção sem letra, sem melodia em mim. Os pássaros lá fora compreendem mais do que sou do que quem se aproxima e me escuta. Eles passam em sopro. Eu também.

14 de ago. de 2020

Novelo dos dias idos

Eu consigo escrever em instantes. E não são tantos assim. Minha mente brinca com o orvalho dos pensamentos quietos que não chegam a ter forma, mas me tocam gentilmente num minuto de prece que me escorre em lágrima. Tão rápido! Outras vezes, vejo fagulhas que crepitam de lembranças que busco desembaraçar do carretel dos dias idos em linhas de cores e texturas mui diferentes. Cada linha que desfaço de vários nós passados, tem um soluço ou um suspiro muito longos. Deixo cair as vezes esse novelo que me arranha em alguns toques, mas sempre volto a dar-lhe minha atenção. Alguns momentos me canso de verdade desse desembaraçar e paro, deixando o tempo devagarinho me fazer balanço e me contar suas esperanças. Vou e volto algumas vezes e abro frestas de luz a cada memória que consigo perdoar e resignificar. E não é exatamente dolorido o tempo todo. Várias vezes escuto risos e sinto na boca o gosto açucarado de momentos que não percebia mais. Mas sempre me aquieto a cada nó que se desfaz. E sou calma e brilho em vários micro instantes numa emotividade tão mansinha, tão delicada, que não transpareço, mas secretamente, sinto.

19 de fev. de 2020

folha a folha

Folha a folha, crepitam raízes meus pés descalços, do solo que é tão gélido, tanto derrete em mim. Asas se assustam em galhos cobertos por vazios de outono antes que minhas mãos rocem troncos de árvores tão antigas que não poderia um abraço único enlaçar até o fim.Há tanta história retida! Tanto sendo evitado! Tão finito é o instante que evaporam gostas pequeninas de uma água que não vejo mas que sinto em minha pele, devagarinho correr. Meu pulso brinca e ferve no meu peito que arfa palavras que saem aflitas dos meus lábios- e não seria de outra forma. Sinestésica, sinto o mundo lá fora, sinto o vento que trança meus cabelos com folhas e lágrimas que criaturinhas ansiosas pelo fim da secura e do gelo. Tudo tão seco, tão pálido, tão breve. Minha alma está em tudo, e tudo vibra tanto em mim! Cada passo, folha a folha. Nem mesmo por arranhões de brilho quente, minha alma perde o instante tão seco, tão gélido. O mundo lá fora, brilha em gelo e folhas secas. Eu pulso, e aqueço com meu sangue, o gelo das lágrimas fugidias, dos homens que se calaram, das palavras não ditas, das mentes não sãs. O mundo vibra lá fora por tanta secura, folha a folha, por tanta dor. Eu vibro e pulso meu sangue no frio, nas folhas, nas palavras que ainda fluem em mim- preces em sussurro- pra que tudo passe logo e pra que o mundo brote em paz.

25 de nov. de 2019

Lágrima

Meus dedos tocam cada letra como se delas quintessência puríssima fluísse. Eu sinto o brilho que espraia nas palavras se unidas da forma correta. Sinto como se minha mente estivesse totalmente imersa em um não sei o quê de possibilidades, que brilham, faíscam, que não consigo conter ou limitar. Eu tenho alma fosforescente e não sei o limite disso. Minhas lágrimas não são feitas de matéria que se submete à gravidade, e alçam voo muito mais rápido do que a sutileza com que as deixo ir. Não caem, e minha pele é tocada à linha d'água tão breve! Minha lágrima é feita de um sentimento tão intenso que muitas vezes não sei dar nome. É tão volátil, tão rápida. Nós somos feitos de idas e vindas de lágrimas que já foram, de ventos que nos tocam com lágrimas que não são nossas, de ventos que são puramente abraçados em transpiração que não nos cabe entender. O vento morno ou frio, cada corrente de sopro que vem de cantos muito estranhos a nós, tudo faz morada em nossos poros e tudo se esvai antes que nós possamos sentir; Sinto tanto e não tenho nome ao que sinto. Sinto muito por sentir sem linha, mas acho que deve ser exatamente esse o valor de cada instante. De tão intenso, não tem nome, não cabe em sequência e nada consegue conter. Nós não temos verbo que explicite a história de cada pessoa e por isso, eu penso, não conseguimos dar nomes certos a variação de cada sentimento que rotulamos por aproximação. Quimera querer colocar cercado o que explode antes mesmo de contido. Qual o sentido de sentir limitando quando tudo é tão fluido?

10 de mai. de 2018

fagulhas-fada

Faz um sem fim de dias que não intento a escrita. Não tenho melhorado muito desde a última vez que pormenorizei em letras o que se passava em mim. Danço e rodopio numa tempestade impiedosa, mas que em vários momentos me apresenta cabanas de acolhimento em brechas de sol sobre a pele. Vai e volta esse sol, e também assim procedem os pingos constantes e grossos de uma chuva gélida. Meu peito é um descompasso de hipóteses e todos os "se(s)" me deixam tonta em momentos diversos levando minha mente a outras infindáveis dúvidas. Sou canto sem voz?  Meus olhos se confundem na chuva com a própria nuvem infindável e por vezes, minha própria chuva não chega a cair. Fora de mim, o mundo faz metáfora do que várias vezes vivo aqui dentro. E falo pro nada. Deixo que partam fagulhas insensíveis à tempestade e que brincam aos saltos nas poças e córregos do que desabou faz tempo no mundo dos homens. Gargalham. Não sabia eu, poder brotar criaturinhas feéricas do peito , mas elas vão e continuam a brilhar. Não sei se sou onde elas estão ou se fico antes delas partirem. O sol está em mim? Ou sou a chuva sem fim? Tanto tempo, tanto tempo. Faz frio aqui, mas do meu peito brotam ainda fagulhas-fada que se dispersam pra além do que consigo sentir. Elas queimam. Fervem em cada explosão antes de saírem aos saltos de dentro de minha alma... O que fiz eu quando decidiram partir? Ou sou a fonte e permanecem, ou sou onde elas estão... Tudo é tão breve!